INSPIRAÇÃO – O ROTEIRISTA COMO ARTISTA

PLAYTIME, 1967. dir. Jacques Tati

Este post é principalmente para roteiristas, porque me parecem especialmente vulneráveis às influências da era materialista em que vivemos. Mas possivelmente outros artistas vão conseguir transpor estas reflexões para suas realidades e o acharão interessante.

A técnica de um artista se constrói ao longo de anos de estudo, observação ativa e profunda compreensão não só de todos os aspectos, estilos e história da sua arte, mas também do mundo à sua volta. Suas habilidades técnicas serão desenvolvidas através de elementos aprendidos através de outros artistas, mas mais ainda através do constante processo de acertos e erros acumulados durante a prática (idealmente diária) do seu oficio.

Tenho a impressão de que na lógica atual de criação de roteiros no Brasil a técnica geralmente é considerada o fio condutor no desenvolvimento de um roteiro, um guia com uma série de elementos a serem seguidos. E de fato, se você seguir o passo-a-passo e conceitos expostos pelos Fields, McKees e tantos outros professores (ou até “gurus”!), conseguirá escrever um roteiro com personagens, falas e uma história. Até vai dar para produzir um filme baseado neste roteiro. Mas se você em algum grau se subordinou à técnica, ao invés de usá-la sob seu comando, feito um artista livre, dificilmente será uma obra inspirada. Continue lendo “INSPIRAÇÃO – O ROTEIRISTA COMO ARTISTA”

HECTOR BABENCO, R.I.P.

 

Conheci Hector Babenco em 2001 quando ele estava trabalhando no roteiro de Carandiru e, a partir dali, trabalhamos juntos em todos os seus filmes. Hector se envolvia em todos os aspectos da produção e como falava bem inglês sempre participava ativamente dos desafios de tradução dos seus roteiros ou da legendagem – que no caso de Carandiru, aliás, não eram poucos. A linguagem musical das falas do detentos precisava de atenção especial e em 2002, quando chegou a hora de prepararmos as legendas, acabei passando três dias em SP com Hector e o veterano montador Mauro Alice, criando cuidadosamente os diálogos em inglês.

[Durante aquela visita, outro grande presente eram os almoços com Mauro, porque ele contava histórias do seu mestre austríaco Oswald Hafenrichter, de quem aprendeu a editar nos anos 50. Depois da guerra, Hafenrichter havia sido chamado para Londres para trabalhar com Alexander Korda e Carol Reid, e chegou a ser nomeado para um Oscar por seu trabalho primoroso em The Third Man, com Orson Welles. Em Londres ele conheceu o brasileiro Alberto Cavalcanti, que em 1949 estava voltando para o Brasil para  montar o estúdio Vera Cruz. Em 1950 Cavalcanti convenceu o Hafenrichter a passar uma temporada no estúdio e foi assim que Mauro teve a sorte de receber uma formação tão ilustre – e rigoroso.]

Outro trabalho importante que fiz para Babenco foi seu último filme, Meu Amigo Hindu. Importante porque o roteiro acabou sendo filmado em inglês, então a tradução do roteiro servia tanto para os ensaios quanto como shooting script durante as filmagens. No período dos ensaios foi necessário manter atualizada a versão em inglês, um processo complexo ao longo de meses de trocas para realizar, a cada três ou quatro dias, as sempre urgentes mudanças .
A partir de 2010, Hector acompanhou de longe a criação e crescimento da Michael Chekhov Brasil, então um dia durante uma conversa sobre o roteiro disse: “Vou te dar um papel no filme, tá bom?” Acabei fazendo uma ponta como o personagem Ivan, um velho judeu amigo do protagonista (Willem Dafoe).

Hugo Moss no papel de IVAN em Meu Amigo Hindu, 2015

Pelo seu ritmo de produção, seria provavelmente por estes dias que eu receberia um telefonema do Hector com alguma demanda para seu novo roteiro. Mas Hector faleceu exatamente um ano atrás, não muito tempo depois do lançamento de Meu Amigo Hindu. Ele tinha 70 anos de idade.

Sentindo muita falta agora do telefonema que não virá mais.

Le boucher, 1970

Le boucher. dir. Claude Chabrol. 1970

Assisti ao genial Le boucher quando tinha 15 ou 16 anos no pequeno Film Club da minha escola no interior da Inglaterra. Foi organizado pelo professor de francês e portanto os últimos filmes do Truffaut, Malle e Chabrol sempre faziam parte da programação, embora todos em cópias bem precárias de Super-8. Eu nem sei onde ele conseguia os filmes, talvez em uma videoteca na cidade mais próxima. Inicialmente, o clube para mim era nada mais do que uma desculpa para matar alguma atividade esportiva, as quais eram absurdamente excessivas para meu gosto.

Chabrol me tocou de uma forma especial com La femme infidèle e Que la bête meure, mas foi Le boucher que acordou em mim a primeira consciência da construção artística de um filme, a subjetividade do diretor e do fotógrafo, as escolhas de estilo e outras ideias. E embora eu não tenha assistido a este filme recentemente (faz décadas), me lembro exatamente das cenas que eu estudava concentrado e que abriam a minha mente de adolescente para as possibilidades da linguagem de cinema: no final do filme o personagem do Jean Yanne chega uma última vez na sala de aula para encontrar a professora de Stéphane Audran, e segue uma sequência de uma extraordinária delicadeza e beleza, apesar da tragédia violenta se desenrolando.

Le boucher foi a minha primeira uma aula de cinema.

E para os nerds da fotografia: o filme tem um plano sequência maravilhoso que segue os personagens andando pelas ruas do vilarejo por quatro minutos (só seis anos depois a Steadycam chegaria para facilitar este tipo de plano).

CV tradução/cinema+TV

Alguns projetos cinematográficos com tradução de Hugo Moss (roteiro, legendagem e outro material):

Estorvo, For All, Bellini e a Esfinge, Oriundi, Benjamim, O menino maluquinho, Wait For Me, Atrás do Vento, Negociação Mortal, O Viagante, Quase Memória,  Central do Brasil, Bendito Fruto, Eu Tu Eles, Panair do Brasil, Cidade de Deus, Mauá – Imperador e Rei, Gêmeas, Bahia de Todos os Sambas, Aleijadinho, Samba, Outras Histórias, Domésticas, Amores Possíveis, Quase Nada, Latitude Zero, Dia da Caça, Bufo e Spallanzani, Casa de Areia, Condenado à Liberdade, No Olho do Furacão, Janela da Alma, A História de Dé, Antes da Noite, Dias de Nietzsche, A Partilha, Xangô de Baker Street, Histórias do Olhar, As Três Marias, Tainá, Whispers, Lavoura Arcaica, Vinicius, Os Narradores do Vale de Javé, O Banquete dos Mendigos, Querido Estranho, O Homem do Ano, Tainá 2, Carandiru, Carandiru.doc, Cazuza, Os Arturos, Ouro Negro, A Escuta do Silêncio, Vaidade, O Outro Lado da Rua, Olga, Febre de Rato, Redentor, A Taça do Mundo é Nossa, Coração do Samba, Guardiões do Samba, JK, Gaijin 2, Vinho de Rosas, Moacir, Desafinados, Vestido de Noiva, Budapeste, Lembranças do Futuro, Veneno da Madrugada, Zuzu Angel, O Cinema é Meu Jardim, Dois Filhos de Francisco, Norma, Coisa Mais Linda, As Meninas, El Passado, Tropa de Elite, Vinicius, Órfãs da Rainha, O Ano em que  Meus Pais Saíram de Férias, Descaminhos, Cinco Frações de uma Quase História, Meu Brasil, Fronteira, Foliar Brasil, O Magnata, O Mundo em Duas Voltas, Garimpo, Querô, O Crime da Atriz, Pedra do Reino, Chega de Saudades, Malandro, Todo Mundo tem Problemas (Sexuais), Corações Sujos, Moving House, Encarnação do Demônio, Verônica, Capitu, Tainá 3, O Contador de Histórias, O Homem do Futuro, Rio Funk, Bossa Nova, Terras, As Aventuras do Avião Vermelho, Bolota e Chumbrega, Nosso Lar, Made in Brazil, As Melhores Coisas do Mundo, Penas Alternativas, O Senhor do Labirinto, A Suprema Felicidade, Estamos Juntos, Ratoeira, Heleno, Afinal o que Querem as Mulheres?, Qualquer Gato, Meus Pais, Capitães de Areia, Por um Punhado de Dólares – os Novos Emigrados, Elena, Marcelo Yuko no Caminho das Setas, Lutas, Reidy – a Construção da Utópia, O Samba que Mora em Mim, Trilogia do Pantanal, Tainá 4, A Mulher de Longe, Reino Animal, Sunday, Todos Esses Dias em que Sou Estrangeiro, Eliane, Lobo Atrás da Porta, Brincante, Que Horas Ele Volta, Ausência, Pele de Pássaro, Meu Amigo Hindu, Copacabana, Introdução à Música do Sangue, Mexeu Comigo Mexeu Com Todas, Impeachment (…)

…além dos roteiros de Laboratórios Sundance e inúmeros outros projetos inéditos.